Conto: Selva de Pedra

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Ele não olhava em volta. A vida era tão acelerada. Correr, pular, gritar. Ninguém colocava freios. Foram das dificuldades que vieram os primeiros momentos de parada, de reflexão. Da prova de matemática, do colega de escola que pensava diferente.

Ainda faltava percepção. Os arredores não tinham graça e por isso as letras das músicas não faziam sentido. Como querer que os outros ouçam quando não se ouve? Um baque. Uma pequena rachadura na parede. Por um buraco espiou uma flor crescer no asfalto. Seria a existência de Deus?

As pessoas julgam o que tem como inevitável, mas nada dura para sempre. Períodos de solidão. Acostuma-se a não ligar e quem é próximo não se importa. O que se faz para merecer o esquecimento é uma pergunta.

Hora de partir. Olha, um avião! Cai outro pedaço da parede. Volta. Percebe que o céu existe. De dia é azul. A noite a lua é de prata e as estrelas salpicam a escuridão com luz. Parte outra vez. Lá no teto as nuvens são cinzas. Fumaça. Não ande por aqui. Nem ali. Mãos se agitam diante do rosto.

Desespero. Petição. Oito pessoas ocupam o mesmo lugar no espaço. Pressa. Mantenha a direita. Jogaram o cadeirante pra fora do vagão. Chove o tempo todo. A roupa não seca. O mundo não deixa andar mais rápido e o patrão pede pontualidade. Ofensas saem fácil da boca. Bateram. Roubaram. A gentileza com o idoso rende insulto. Idiota. Revidou com palavras. Vontade de chutar a bengala por atrasar a fila. Outro retorno. Olha o céu e a flor. As árvores.

As antigas paredes da casa que a mente construiu, caem por completo. Seja ódio. Seja amor. Paciência e pressa. Dói, mas tenta entender. Pensa e procura melhorar. Não todo dia. Um pouco. De vez em quando. O trabalho de uma vida.

 

Gustavo Brunelli

 

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